Recebi um convite. Substituir uma atriz em uma peça aqui na capital. Aceitei de cara. Não só porque a atriz que vou substituir é alguém que constantemente é confundida comigo. Eu também sou confundida com ela. Mas aceitei porque é um espetáculo feito por amigos queridos e que eu já assisti e fiquei com muita vontade de viver no palco. Fui ler o texto, estudar para tentar não pensar nas minhas mazelas pessoais. Me deparei com um monólogo da minha personagem, que chama MÃE (veja bem!), e li em voz alta um texto tão meu quanto qualquer outro que eu realmente escrevi. "Às vezes, quando estou sentada a uma mesa, por exemplo, com amigos, ou quando estou no metrô, num domingo à tarde, por exemplo, ou diante das prateleiras do supermercado, à noite, depois do trabalho, me sobe esta raiva. Essa raiva do fato de que ninguém jamais vai saber como eu me sinto de verdade. Como é ser eu. Nunca ninguém verá minhas mãos como eu as vejo. Ninguém vai ter essa sensação, no fundo do peit...